Encontro com o Autor

Cibeli Tenório resgata história da sufragista negra Almerinda Gama

Jornalista alagoana conta como achou fotos esquecidas no acervo da FGV e transformou a pesquisa em documentário, mestrado e livro premiado.

Encontro com o Autor · 2026-05-27

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O programa Encontro com o Autor recebeu a jornalista e pesquisadora Cibeli Tenório, autora do livro Almerinda, Sufragista Negra, vencedor do Prêmio Todavia de Não-Ficção em 2023. Alagoana, doutoranda em História e apresentadora de um programa sobre música popular brasileira na Rádio Nacional, Cibeli dedicou a última década a reconstruir a trajetória de Almerinda Farias Gama, sufragista negra que ajudou a colocar as pautas das mulheres no centro do debate político brasileiro ao lado de nomes como Bertha Lutz.

Cibeli contou que tudo começou em 2015, numa oficina de produção audiovisual no CPDoc, instituto de guarda da memória do Brasil ligado à Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Ao procurar mulheres no acervo, ela encontrou a ficha de Almerinda, descrita como liderança feminista e jornalista alagoana, e ficou intrigada por nunca ter ouvido falar dela apesar de também ser jornalista de Alagoas. Com apenas cinco fotos e uma entrevista de áudio disponíveis no acervo, a autora produziu um curta-metragem sobre a personagem, lançado no mesmo ano da primeira marcha das mulheres negras em Brasília, onde levou panfletos reproduzidos de Almerinda para perguntar às participantes se a conheciam. Quase ninguém sabia quem era, exceto Benedita da Silva, o que Cibeli considera simbólico, já que Almerinda abriu caminho para as mulheres negras que ocupariam o poder depois dela.

A pesquisa ganhou fôlego acadêmico quando Cibeli conheceu, no Festival Latinidades, a professora Aparecida Pinto e sua biografia sobre Laudelina de Campos Mello. Isso a levou a buscar a Universidade de Brasília, onde encontrou a professora Tereza Marques, referência em estudos sobre sufrágio feminino, e cursou o mestrado em História sob sua orientação. Da dissertação nasceu o livro, escrito para tirar a história dos repositórios acadêmicos e levá-la ao público.

Um dos pontos altos da entrevista foi o relato sobre a fotografia mais conhecida de Almerinda, em que ela aparece depositando um voto na urna nos anos 1930. A imagem registra a eleição de deputados classistas, mecanismo criado por Getúlio Vargas que existiu apenas naquele período da história brasileira e permitia que sindicatos e associações profissionais elegessem representantes. Como todos os sindicatos já tinham presidentes homens, as feministas da época criaram o sindicato das datilógrafas, categoria da própria Almerinda, para conseguir participar do processo. O Ministério do Trabalho, porém, não permitiu o registro no feminino, obrigando o sindicato a se chamar dos datilógrafos mesmo sem nenhum homem na categoria. Na carteira sindical de Almerinda, hoje reproduzida no livro, ela riscava à mão palavras como companheiro para transformá-las em companheira.

Almerinda concorreu entre mais de 200 candidatos e foi a única mulher na disputa, marco registrado na fotografia que circulou por décadas em reportagens sobre o voto feminino sem que se soubesse o nome da mulher retratada. Segundo Cibeli, a biografia busca justamente desmontar a ideia de que o sufragismo brasileiro foi um movimento restrito a mulheres brancas e ricas, mostrando que Almerinda também fundou sindicatos, defendeu direitos trabalhistas e atuou como jornalista, escritora e compositora à frente de seu tempo.

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