Encontro com o Autor

Monique Malcher discute romance De Gola no Encontro com a Autora

Escritora paraense fala sobre De Gola, romance ambientado em ocupações urbanas de Manaus nos anos 90, no programa da Câmara dos Deputados.

Encontro com o Autor · 2026-07-26

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O programa Encontro com a Autora, da Câmara dos Deputados, recebeu a escritora Monique Malcher para uma conversa sobre sua trajetória literária. Nascida em Santarém, no Pará, Monique é jornalista, antropóloga e artista plástica, e assina uma escrita marcada por lirismo, crítica social e memória afetiva. Seu livro de estreia, Flor de Gume, lançado em 2020, venceu o Prêmio Jabuti na categoria Contos. Em 2025, ela publicou pela Companhia das Letras o romance De Gola, tema central do encontro conduzido por Maira Brito e Mônica Montenegro, da Rádio Câmara.

De Gola acompanha Sol, mulher que decide aprender a nadar como forma de encarar perdas vividas na infância. A narrativa recupera a história de uma família que deixa Santarém rumo a Manaus, atraída pela promessa de progresso da zona franca, e acaba vivendo numa ocupação por falta de recursos. Entre os personagens marcantes estão a mãe Joana, com quem Sol tem uma relação dolorosa, o pai Alfredo, que se torna liderança comunitária, e a irmã Eliana, religiosa que ajuda os moradores a se organizar e lutar por seus direitos.

Monique contou que o livro nasce de um resgate de memória e de uma experiência pessoal, já que viveu com a mãe numa ocupação em Manaus na década de 90. Segundo ela, Sol tem uma trajetória dissociada da sua própria, mas o caráter autobiográfico aparece nas escolhas políticas do livro, como o recorte histórico e o cenário da ocupação. A autora relacionou sua formação como repórter policial, período em que fazia rondas por delegacias e hospitais, com o olhar que hoje aplica à ficção, além do papel da antropologia como forma de compreender diferentes modos de viver, inspirada em referências como a ideia de que a escrita é uma tecnologia.

Um dos momentos emocionantes da entrevista foi a revelação de que a personagem irmã Eliana é uma homenagem à irmã Helena Augusta, mulher negra, filha de imigrantes barbadianos, que atuou pela legalização de bairros em Manaus e chegou a ser presa por se colocar à frente de máquinas em defesa das comunidades. Já o pai de Sol, Alfredo, remete a lideranças comunitárias da Amazônia assassinadas por lutarem pelo direito básico à moradia e à dignidade.

Monique também comentou o papel simbólico da água em sua obra: presente nos rios de Flor de Gume e confinada numa piscina em De Gola, refletindo os sentimentos represados de Sol. A autora falou ainda sobre o jogo entre prosa e poesia em seus livros, citando a influência da estrutura de Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, e convocando os leitores a participar ativamente da construção do sentido da narrativa.

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