
Brasil envelhece: demógrafa da Unicamp analisa dados do Censo 2022
Episódio do Ponto de Vista reúne a demógrafa Luciana Alves, da Unicamp, para explicar por que 32 milhões de brasileiros já têm 60 anos ou mais.
O Brasil está envelhecendo. É o que confirmam os dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE, que apontam que pessoas com 60 anos ou mais já somam 15,8% da população total do país, o equivalente a 32 milhões de indivíduos. Para discutir os desafios dessa nova realidade, o programa Ponto de Vista recebeu Luciana Alves, professora do Departamento Demográfico do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFI) da Unicamp e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo).
Segundo a demógrafa, o envelhecimento da população brasileira resulta de dois fenômenos que ocorrem simultaneamente. O primeiro é a queda da fecundidade, processo que começou nos anos 1980 e se acentuou a partir dos anos 2000. O segundo é a redução da mortalidade infantil, observada desde a década de 1940 e intensificada a partir de 1991 e 2000, que é a grande responsável pelo aumento da longevidade. Luciana explicou que fatores como saneamento básico, avanços da medicina, vacinação e, mais recentemente, hábitos de vida mais saudáveis e controle de doenças crônicas contribuíram para que as pessoas vivam mais.
A pesquisadora destacou ainda que esse processo não é uniforme em todo o território nacional. Regiões como Sul, Sudeste e Centro Oeste, com serviços de saúde mais desenvolvidos, menor desigualdade e maior escolaridade e renda da população, apresentam queda mais acentuada da mortalidade em idades avançadas do que Norte e Nordeste, ainda em transição demográfica. Já a queda da fecundidade está ligada a mudanças sociais, como a ampliação da escolaridade das mulheres, a entrada feminina no mercado de trabalho e a maior autonomia e renda das mulheres, que passaram a ter menos filhos e a adiar a maternidade. Hoje a taxa de fecundidade no Brasil está em torno de 1,5 filho por mulher, abaixo do nível de reposição de 2,1.
Essas mudanças alteraram a estrutura etária do país, que deixou de ter o formato de pirâmide de base larga, com muitas crianças, para concentrar maior volume de pessoas na faixa economicamente ativa, de 15 a 59 anos, e no topo, entre os idosos. Luciana Alves apontou que isso abre oportunidades, como facilitar o acesso universal a creches e escolas e ampliar o potencial produtivo do país, mas também impõe desafios em áreas como saúde, previdência e mercado de trabalho. Um dos primeiros impactos já sentidos, segundo a demógrafa, foi o aumento da idade de aposentadoria, já que o regime de repartição simples depende da população em atividade para sustentar os aposentados, e a transição demográfica reduz o número de pessoas nessa faixa de idade.
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