
PUC-Campinas lança 1ª antologia no Brasil de poeta que hoje é cardeal no Vaticano
Professor da PUC-Campinas Márcio Capelli organiza 'Os Enigmas Singulares', reunindo 200 poemas de José Tolentino Mendonça, cardeal no Vaticano.
O quadro De Olho na Educação recebeu o poeta e pesquisador Márcio Capelli, professor da Faculdade de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-Campinas, para falar sobre o lançamento de 'Os Enigmas Singulares', antologia poética de José Tolentino Mendonça. O português é hoje prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano e um dos nomes de destaque da literatura portuguesa contemporânea, premiado em diversas ocasiões, mas que até este ano não tinha uma publicação de sua poesia reunida no Brasil.
Capelli contou que o trabalho efetivo de releitura, seleção e definição de critérios durou cerca de um ano, embora sua convivência com a poesia de Tolentino Mendonça já viesse de antes. O contato mais profundo com a obra aconteceu por volta de 2016 e 2017, quando o professor cursou parte do doutorado em Portugal, pesquisando o escritor José Saramago sob orientação do próprio Tolentino Mendonça, então professor da Faculdade de Teologia e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa. Da leitura de 13 livros de poemas, foram selecionados cerca de 200 textos, organizados em ordem cronológica para dar ao leitor brasileiro uma noção geral dos temas e imagens recorrentes, embora o critério de escolha, segundo Capelli, não tenha sido puramente cronológico, e sim voltado a identificar elementos que se repetem ao longo da obra.
Durante a entrevista, Capelli leu e comentou poemas selecionados especialmente para o programa. 'A Infância de Herberto Hélder', dedicado ao poeta madeirense Herberto Hélder, foi apresentado como o primeiro texto que Tolentino Mendonça reconheceu como poema, ainda na adolescência. Segundo Capelli, embora haja ecos do universo bíblico e do cristianismo na poesia de Tolentino Mendonça, ela não pode ser reduzida a uma poesia meramente religiosa ou confessional, funcionando antes como uma provocação para que o leitor preste mais atenção ao cotidiano. Já o poema 'Epitáfio para Heiner Maria Hilk' foi destacado por evocar um exercício de silêncio, marcado por suspensões e espaços em branco.
Outro poema comentado, 'A Casa, Onde às Vezes Regresso', trouxe o tema da casa e do regresso, associado por Capelli à ideia de êxodo e à imagem do poeta mexicano Otávio Pais, para quem a poesia é uma passagem a outra margem. O professor também citou 'Os Versos', um metapoema sobre a própria impossibilidade de controlar a poesia, tanto por quem escreve quanto por quem lê. Capelli lembrou ainda que Tolentino Mendonça é leitor de poetas brasileiros como Murilo Mendes, Jorge de Lima e Adélia Prado, a quem dedica um poema presente na antologia, e que recentemente recebeu o Prêmio da Biblioteca Nacional.
Ao final, Capelli compartilhou que sua própria formação literária na infância foi mediada pela Bíblia, em uma origem religiosa protestante, na igreja batista, o que moldou seu primeiro contato com histórias e poemas, especialmente os salmos. Para o pesquisador, ler qualquer livro de poesia é sempre uma grande aventura e uma incógnita, e a poesia de Tolentino Mendonça ajuda a perceber que a poesia está presente no cotidiano, assim como ocorre, por exemplo, na música popular brasileira.
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