
Histórias de Vida: dos anos na Cracolândia ao diploma de Direito
Thiago Nogueira conta como o crack dominou sua vida após a notícia do HIV da mãe e como saiu da rua para se formar advogado.
O programa Histórias de Vida, da Rádio Câmara de Campinas, recebeu o advogado Thiago Nogueira para contar uma trajetória marcada pela dor, pela dependência química e por uma reconstrução pessoal profunda. Tiago descreve uma infância tranquila, cercada pela mãe Maria Isabel Nogueira, pela avó e pela tia, além da prática de futebol em campeonatos paulistas até os 12 anos de idade. Foi justamente aos 12 anos que recebeu da mãe a notícia de que ela era portadora do HIV, em uma época em que a doença ainda carregava grande preconceito e poucos recursos médicos. Esse momento, segundo ele, abriu as portas para o contato com a maconha, depois o álcool, a cocaína e, por fim, o crack.
Ele relata que, dos 22 aos 25 anos, já trabalhando com um tio em um ferro-velho, vivia uma rotina dividida entre o emprego e o uso diário da droga, até perceber que o crack passava a controlar sua vida. Em 2008, tomou a decisão de deixar a casa da família e foi viver na Cracolândia, na região central de São Paulo, onde permaneceu até 2012. Ele descreve o local como uma espécie de engrenagem organizada, com papéis definidos entre usuários, e conta que sobrevivia fazendo reciclagem, descarregando containers, realizando pequenos serviços e pedindo em sinais de trânsito para conseguir dinheiro e manter o consumo.
A virada aconteceu em 2012, após um sonho em que reencontrou a avó, já falecida. Ao despertar, Tiago afirma ter tido um choque de realidade ao se olhar no espelho e refletir sobre o que havia se tornado. No dia 8 de maio daquele ano, bateu à porta de uma instituição chamada Cristolândia pedindo ajuda. O início do tratamento foi marcado pela resistência em aceitar o discurso religioso, já que ele guardava raiva de Deus pelas perdas da mãe, do irmão (também vítima do vírus HIV), de um tio, que morreu de hipotermia nas ruas, e da avó, que faleceu de câncer. A mudança veio depois de um episódio de entrega emocional durante uma mensagem sobre a tempestade no mar da Galileia, quando decidiu aceitar a fé como parte de sua recuperação.
Já no terceiro ano vinculado à instituição, Tiago e outros colegas em recuperação buscaram uma forma de ingressar no ensino superior. A solução veio por meio de uma parceria com a Universidade Anhanguera Belenzinho, que concedeu bolsas de estudo em troca das vivências dos participantes servirem de base para estágios de estudantes de psicologia. Assim, Tiago cursou Direito, enquanto outros colegas seguiram psicologia, educação física e engenharia civil. Seu trabalho de conclusão de curso discutiu a defesa da dignidade da pessoa humana para a população em situação de rua, tema que ele relaciona diretamente à invisibilidade que viveu durante os anos na Cracolândia.
Hoje advogado, Thiago Nogueira transformou a própria história de dor e reconstrução em instrumento de reflexão sobre políticas públicas voltadas à população em situação de rua, encerrando mais um episódio do Histórias de Vida com um relato de superação pessoal.
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