
Histórias de Vida: Eliana Zagui, da poliomielite à arte com a boca
Eliana Zagui contraiu polio aos 1 ano e 9 meses, viveu 45 anos no Hospital das Clínicas e hoje é pintora e escritora.
O programa Histórias de Vida desta semana recebe Eliana Zagui, que contraiu poliomielite com apenas um ano e nove meses, durante a epidemia da doença no Brasil na década de 1970. A infecção levou tempo para ser diagnosticada, em meio a uma correria de hospital em hospital até que um exame do líquor espinhal confirmasse a poliomielite. Ela perdeu os movimentos e ficou dependente de ventilação mecânica, sendo então transferida para o Hospital das Clínicas de São Paulo, onde viveu por 45 anos.
Dentro do HC, Eliana não estava sozinha. Ela e mais seis pacientes, hoje todos falecidos em anos diferentes, formaram uma espécie de família. O último a partir foi Paulo, que ela chama de verdadeiro irmão, em 2020. Juntos, eles estudaram, aprenderam a ler e escrever e construíram projetos de vida dentro do hospital: Paulo se interessava por design, games e YouTube, enquanto Eliana se dedicava a bonecas, artesanato e tudo que envolvia arte.
Foi aos oito anos que a pintura entrou na vida de Eliana, com apoio da terapia ocupacional, que buscou formas de ela pintar e escrever usando a boca, já que o movimento das mãos era limitado. O processo não foi fácil e envolveu muita revolta até o aperfeiçoamento da técnica. Hoje ela integra a Associação dos Pintores com a Boca e os Pés, que envia seus quadros para avaliação na Suíça, de onde recebe uma bolsa, e que distribui o trabalho dos artistas em cartões de Natal e calendários pelo mundo.
Eliana também transformou cadernos de desabafo escritos ao longo dos anos em um livro, lançado em 2012 após o interesse de uma editora que a conheceu durante uma entrevista e foi até o hospital fazer a pesquisa de campo. Ela descreve o lançamento como um sucesso e conta que muitas pessoas se identificaram com sua trajetória.
Depois de mais de 40 anos internada, Eliana conseguiu deixar o Hospital das Clínicas com ajuda de uma pessoa com quem morou por quatro anos e meio, até se fixar em Campinas, acolhida por uma família. A saída se tornou definitiva durante a pandemia, quando uma decisão judicial determinou que ela não retornaria ao hospital por risco à sua saúde. Há seis anos morando fora, ela já visitou o ateliê do grafiteiro Cobra e participou de uma exposição com colegas de pintura. Hoje, diz se orgulhar de nunca ter desistido e sonha em viajar e conhecer o Sul do Brasil, guiada pela fé que, segundo ela, a sustenta até hoje.
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