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Aplauso resgata Noel Rosa e a ascensão do samba do morro ao asfalto

Biógrafo André Diniz conta ao Aplauso como Noel Rosa uniu morro e asfalto e ajudou o samba a se tornar ritmo nacional nos anos 1930.

Aplauso · 2026-10-15

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O programa Aplauso, apresentado por Carmen Del Pino, recebeu o pesquisador André Diniz, autor do livro Noel Rosa, um perfil biográfico, para uma conversa sobre a trajetória do compositor carioca. Diniz descreveu Noel como um mediador cultural entre o asfalto e o morro, um flâneur, nos termos da literatura de Baudelaire, capaz de circular entre classes sociais distintas. Jovem de classe média, estudante do tradicional Colégio São Bento e da Faculdade de Medicina, Noel morava em Vila Isabel, mas também frequentava a Lapa, Mangueira e o Morro do Salgueiro, o que lhe permitiu dar ao samba uma narrativa que não era nem só do morro, nem só do asfalto.

Segundo o biógrafo, Noel foi um dos primeiros a trazer a linguagem coloquial e a sátira do cotidiano para as letras de samba, rompendo com a influência parnasiana then vigente. Diniz relembrou o episódio em que Noel, também caricaturista, teve um desentendimento com o pintor Di Cavalcanti, que o aconselhou a continuar apenas compondo. Para o pesquisador, essa capacidade de falar diretamente com o povo, usando gírias e temas contemporâneos, torna Noel um poeta do modernismo no Rio de Janeiro que se transformava em metrópole.

A entrevista também tratou da consolidação do samba como ritmo nacional. Diniz explicou que o gênero teve duas fases: até 1928, prevalecia um samba ligado ao maxixe, dança de salão da Cidade Nova; depois, com o samba de batuque surgido no Morro de São Carlos e a fundação da primeira escola de samba naquele ano, a síncope de raízes africanas ganhou força. Com a radiodifusão, especialmente pela Rádio Nacional nos anos 1940, esse samba carioca se espalhou pelo Brasil e encontrou identificação em ritmos afrodescendentes já presentes em diferentes regiões do país, como o congo e o jongo.

André Diniz também situou as composições de Noel no Rio de Janeiro de sua época, marcado por transformações como o bonde elétrico e o cinema falado, mas por uma modernidade incompleta, em que a Avenida Atlântica convivia com condições de vida precárias. Um dos episódios narrados foi a compra de um carro de Francisco Alves, pago por Noel em composições de samba, numa amizade marcada por boemia e corridas noturnas pela cidade. Diniz destacou ainda a produtividade do compositor, autor de mais de duzentas músicas em poucos anos de carreira, comparável, segundo o biógrafo, à de Dorival Caymmi.

Ao longo do programa, a conversa foi intercalada com canções de Noel Rosa em diferentes interpretações: Rapaz Folgado, na voz de Mariana de Moraes, O Orvalho Vem Caindo, por Elza Soares, e Não Tem Tradução, cantada por João Nogueira, samba manifesto que critica o excesso de estrangeirismos no Brasil dos anos 1930 e exalta a cultura popular dos morros.

Músicas e artistas citados
Rapaz FolgadoO Orvalho Vem CaindoNão Tem Tradução
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