
Patrícia Selonk celebra os 40 anos da Armazém Companhia de Teatro
No Trilha das Artes, atriz fala sobre a trajetória da Armazém, o espaço na Fundição Progresso e a montagem de Dias Felizes, de Beckett.
O programa Trilha das Artes, apresentado por Mônica Montenegro, recebeu a atriz Patrícia Selonk, cofundadora da Armazém Companhia de Teatro, grupo que atua há quase quatro décadas nos palcos brasileiros. Ao som de uma trilha sonora escolhida por ela, Patrícia contou como o coletivo nasceu em Londrina, no Paraná, a partir de um grupo de jovens do Colégio Delta reunidos pelo diretor Paulo de Moraes. A companhia começou de forma despretensiosa, com a vontade de montar uma peça, e foi crescendo até ocupar um antigo armazém de café na cidade, espaço que deu origem ao nome do grupo e que servia para ensaios, apresentações, aulas e até festas.
Com a mudança para o Rio de Janeiro, a Armazém passou a ocupar uma das salas do Centro Cultural Fundição Progresso, na Lapa, onde permanece desde 1999. Patrícia lembrou que a chegada ao Rio foi marcada pelo espetáculo Alice Através do Espelho, montagem sensorial e imersiva que reunia cerca de sessenta pessoas por sessão e ficou em cartaz por dois anos, tornando-se um marco de apresentação da companhia ao público carioca. Foi dessa peça que veio uma das faixas escolhidas para o programa, a música Bom Dia, de Nando Reis, tocada antes de cada sessão e que até hoje carrega para a atriz uma forte sensação de alegria e começo.
A atriz também falou sobre a intensidade física que marca seu trabalho em cena, construída ao longo dos espetáculos da Armazém, que exigiam repertórios corporais variados, incluindo passagens por uma faculdade de dança contemporânea no Rio de Janeiro. Segundo ela, o processo criativo costuma começar pelo corpo antes de qualquer racionalização sobre a personagem, e a música tem papel central nesse processo, funcionando como abertura de imaginação para cada novo trabalho.
A conversa chegou à montagem mais recente da companhia, Dias Felizes, de Samuel Beckett, escrita e encenada originalmente em 1961. Na peça, Patrícia interpreta Winnie, personagem enterrada até a cintura e, mais adiante, até o pescoço. A atriz contou que a ideia de montar o texto surgiu durante a pandemia, quando gravou um trecho da obra para um projeto digital em meio ao fechamento dos espaços de trabalho da companhia. Anos depois, já aos 55 anos, propôs aos colegas da Armazém que o espetáculo entrasse em cartaz, encontrando na imobilidade da personagem um reflexo do momento atual, marcado pela perda de sentido de antigas estruturas morais, religiosas e políticas.
Patrícia explicou ainda que optou por interpretar Winnie em pé, mesmo que o público veja apenas parte de seu corpo, para manter os micromovimentos que sustentam a postura e ajudam na construção física da personagem. Ela descreveu Winnie como uma mulher que tenta atravessar o dia por meio de pequenos rituais com objetos guardados em uma bolsa, evitando encarar diretamente sua condição, em uma reflexão que, segundo a atriz, segue extremamente atual mais de sessenta anos após a estreia da peça.
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