
Maria Adelaide Amaral fala de memória e solidariedade na Trilha das Artes
Dramaturga e romancista comenta reedições de seus livros, a mulher real que inspirou Estrela Nua e as músicas que marcam sua trajetória.
O programa Trilha das Artes, apresentado por Mônica Montenegro, recebeu a dramaturga, romancista e roteirista Maria Adelaide Amaral, uma das nomes mais importantes da cultura brasileira contemporânea. Aos 84 anos, autora de obras marcantes para o teatro e a televisão, como A Casa das Sete Mulheres, A Muralha, Os Maias, Um Só Coração, JK e Dalva e Herivelto, ela segue em atividade, escrevendo roteiros, dando palestras e relançando seus romances pela editora Instante. Luísa, Aos Meus Amigos e O Bruxo já voltaram às livrarias, e agora chega uma edição revista de Estrela Nua.
Durante a conversa, Maria Adelaide refletiu sobre o processo de reencontrar personagens escritos décadas atrás. Para ela, os anos 70 e o início dos 80 foram tempos duros, mas também marcados por forte solidariedade e espírito de coletividade, algo que considera escasso na atualidade, tomada por uma espécie de narcisismo. Mesmo assim, disse acreditar no ser humano e destacou como sinal positivo o crescimento dos clubes de leitura, sobretudo entre mulheres, como um caminho possível de reconexão entre as pessoas.
A trilha sonora escolhida por ela para o programa dialoga diretamente com sua obra. A música Nada Será Como Antes, de Milton Nascimento e Beto Guedes, que também integrou a trilha da minissérie Queridos Amigos, conduziu a conversa até o romance Estrela Nua, lançado há 20 anos. A autora contou que a protagonista do livro foi inspirada em uma mulher real, cantora excêntrica que estudou canto lírico em Paris, frequentou rodas de artistas e filósofos e chegou a interromper uma soprano durante uma ópera no Teatro Municipal, mas morreu pobre e esquecida. O livro foi escrito a pedido da editora Record para uma coleção sobre amor e sedução, o que levou Maria Adelaide a experimentar uma escrita mais sensual e a explorar o conflito de gerações entre a protagonista e um jovem personagem.
Outra escolha musical da autora foi Não Dá Mais Para Segurar, de Gonzaguinha, também presente na trilha de Queridos Amigos. Ela contou ter descoberto recentemente que a canção, apesar de falar de paixão de forma universal, foi composta a pedido de um amigo do compositor que havia acabado de terminar um relacionamento homossexual.
Ao comentar seu processo criativo, Maria Adelaide citou o dramaturgo Arthur Miller, para quem escrever para teatro é escrever com os ouvidos. Ela explicou que cada personagem precisa falar de acordo com sua origem social, o que exige atenção redobrada em roteiros de televisão, nos quais a multiplicidade de vozes é ainda maior. Como exemplo, lembrou de uma funcionária analfabeta que trabalhou em sua casa e que se recusou a aprender a ler.
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