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Unicamp usa IA para projetar emissões de gases do Brasil até 2030

Pesquisa da Unicamp usa inteligência artificial para projetar emissões de gases de efeito estufa do Brasil até 2030 e propõe índice para políticas públicas.

GIRO AMBIENTAL · 2026-10-21

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O Brasil está entre os dez países que mais emitem gases de efeito estufa no mundo, mas com uma particularidade em relação ao restante do planeta. Enquanto em nações como Estados Unidos e China a produção de energia é o fator preponderante nas emissões, no caso brasileiro são a mudança no uso da terra e a agropecuária que predominam. É o que explica a professora Melissa Vieira, da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp, no episódio do Giro Ambiental que discute uma pesquisa de mestrado orientada por ela sobre o tema. Segundo Melissa, o desmatamento agrava o quadro de duas formas: deixa de remover gases de efeito estufa por meio da vegetação e, durante o próprio processo de desmate, passa a emitir mais gases.

O estudo analisou a evolução das emissões brasileiras entre 2000 e 2023, identificando três períodos distintos por meio de um processo de clusterização, que agrupa momentos de tendências semelhantes de aumento ou redução. Um desses períodos, entre 2006 e 2010, registrou queda expressiva nas emissões, resultado de políticas públicas que reduziram o desmatamento na Amazônia Legal e no Cerrado. De acordo com a pesquisadora, a floresta funciona como um grande armazenador de CO2, e por isso a contenção do desmatamento foi determinante para o decréscimo das emissões brutas no país.

Para projetar o cenário até 2030, a pesquisa partiu de modelos estatísticos tradicionais, como lineares e quadráticos, mas migrou para modelos de inteligência artificial baseados em redes neurais artificiais, já que o problema envolve múltiplas variáveis, como PIB, economia, resíduos e fontes energéticas. A rede neural foi treinada e validada com bases de dados públicas de emissões por estado e por setor. O resultado aponta uma projeção de redução da emissão bruta de gases de efeito estufa até 2030, mas Melissa faz uma ressalva importante: o modelo trabalha com emissões brutas, desconsiderando fontes de remoção de CO2, e isso não significa que o Brasil atingirá automaticamente as metas climáticas voluntárias assumidas em acordos como a COP.

A pesquisa também revelou uma forte disparidade entre os estados brasileiros. Pará e Mato Grosso se destacam como os maiores emissores em termos brutos, em função de sua atividade econômica predominante e da extensão territorial, enquanto São Paulo aparece como grande emissor por seu perfil industrializado. Para orientar políticas públicas mais específicas, o estudo desenvolveu um índice de ambição com base no Plano ABC+, voltado a práticas mais sustentáveis na agropecuária. A pesquisa constatou ainda que os recursos destinados à redução de emissões são distribuídos de forma desigual, sem proporcionalidade direta ao potencial de emissão de cada estado, e que nove estados não disponibilizam integralmente seus dados de emissões, o que compromete a confiabilidade de projeções futuras.

Melissa Vieira destaca que o trabalho terá continuidade, com atualização da base de dados para ampliar as projeções além de 2030. Para ela, a inteligência artificial se mostra uma ferramenta valiosa para lidar com desafios complexos e multivariados como as mudanças climáticas, e o engenheiro químico tem papel relevante nesse processo, ao aplicar técnicas de modelagem que ajudem gestores públicos a tomar decisões com base em evidências científicas.

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